quarta-feira, 7 de abril de 2010

DIPLOMA DE JORNALISTA Antônio Álvares da Silva Professor titular da Faculdade de Direito da UFMG

A recente decisão do STF, tornando desnecessária a exigência de diploma para o
exercício do jornalismo, contém um erro de análise do mundo e das coisas que nele
existem.

A Constituição garante o exercício de qualquer profissão – art. 5º, XIII, mas ressalva que a lei pode impor condições. Esta restrição leva em conta o interesse público da profissão, as exigências técnicas para seu exercício e o significado que tem para a sociedade. Para algumas profissões, estas exigências são óbvias: não se poderia conceber que um prático operasse o cérebro de uma pessoa ou que um pedreiro fizesse o cálculo estrutural de um edifício.

Outras vezes, as restrições não se ligam a impedimentos imediatos. Têm um objetivo
mais amplo que diz respeito a interesses morais, políticos e sociais da vida comunitária.

Exige-se então que a pessoa tenha formação que envolva valores mais altos e refinados,cuja exatidão não se mede com números, mas com habilitação cultural e humanística
solidamente construída. Não se pode permitir que alguém se intitule professor de
filosofia, depois da leitura de dois autores, nem de história, depois de estudar dois
manuais.

É aqui que se situa a profissão de jornalista. Ele não é apenas um homem da palavra e
da redação de textos que trabalha em alguma seção de jornal. A sociedade precisa de
informação para tudo. O homem moderno não pode conhecer diretamente a
complexidade dos dados e acontecimentos que hoje se agitam na complexa organização
social em que vivemos. Por isto, tem que se servir dos órgãos de informação, ou seja, da atividade jornalística, na qual se abrigam conhecimentos técnicos, éticos e políticos, de fundamental importância e significado social, exatamente porque forma opinião e divulga a verdade.

Gay Talese, o grande jornalista americano, disse recentemente, em entrevista à Veja,
que o jornalismo é a mais bela das profissões, porque não esconde nem protege um
mundo irreal, como acontece muitas vezes com políticos, juízes, militares, empresários e várias outras que, muitas vezes, preservam um mundo que não corresponde à realidade.
Pelo contrário, o bom jornalismo expõe a verdade ao povo, com coragem e
determinação. Vara a casca dos corporativismos. Desmascara governos, falsidades de
ministros e falaciosas versões oficiais. Mostra realidades ocultas e subtendidas, como atualmente faz com o Senado Federal. Só mesmo uma imprensa e jornalistas livres
poderiam desempenhar tão grande e significativa façanha.

Portanto, além da formação técnica, do jornalista se exige conhecimento humanístico,
filosófico, político e social. Como se pode escrever sobre a reforma do Judiciário, a
rebelião do Irã, o problema árabe-israelense, a crise econômica mundial se não tiver
conhecimentos especializados e gerais? Como pode interpretar um fato político e social se não possuir aparato técnico e cultural para a tarefa?

Estes conhecimentos, evidentemente, só se colhem nas Faculdades que são o manancial
do saber puro, independente, descompromissado, holístico e completo. O conhecimento
humano, principalmente nos dias de hoje, é por demais complexo para ser
empiricamente apreendido. Exige esforço, dedicação e estudo. E isto só se faz com
reflexão acadêmica.

A inexigência de diploma banalizou a profissão de jornalista. Reduziu-a a um empirismo barato e insignificante, cuja condição de exercício será agora apenas de um estágio e um mero registro num ministério, como se tão singelas formalidades fossem suficientes para o desempenho de uma profissão tão nobre e exigente.

Por que os órgãos da grande imprensa brasileira (Veja e Folha de São Paulo, por
exemplo) louvaram a extinção do diploma? Se foi para baixar custos e contratar

jornalistas baratos, estas empresas não enfrentarão a concorrência e em breve fecharão as portas. A razão é outra. O jornalista diplomado é um homem consciente de seus

deveres. Exerce sua profissão com independência. Constitui sindicatos fortes e atuantes.

Negocia coletivamente salários. Faz greve. Questiona a imprensa de interesses que age
apenas como empresa, de olhos postos na vantagem econômica e não na missão social e
política que dela se espera.

O jornalista diplomado e conhecedor de sua profissão divide o poder com o dono da
empresa jornalística. Sua opinião tem peso. É independente. Tudo isto é visto como
ameaça e está no fundo da argumentação contra o diploma pelos empregadores.

O Min. Gilmar Mendes, relator do processo, deu um exemplo: um
chef pode ser um excelente mestre de culinária. Mas isto não significa que toda refeição deva ser por ele

feita. Se a lição for seguida, os processos não precisam necessariamente de advogados e juízes. Podem ser conduzidos por rábulas. A medicina não necessita dos grandes médicos. Pode ser exercida por enfermeiros. As grandes construções não carecem de engenheiros e calculistas. Bastam as mãos experientes de pedreiros e serventes.

Então, a ciência e o saber aprofundados se tornarão descartáveis. Em nome da plena
autonomia, todos estarão livres para viver na superficialidade das coisas. Fecharemos as portas da universidade para a ciência e abriremos suas janelas para o mundo do empirismo e do conhecimento sem sistema. Em nome da liberdade estaremos usando o meio mais seguro de matá-la.

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